La mia storia...
Nascer no dia 12 de junho talvez tivesse sido romântico, se o destino não tivesse decidido rir da ironia desde cedo. Louise veio ao mundo entre lençóis brancos demais, em silêncio demais. A mãe se foi no parto — como se pressentisse que a filha teria coisa demais pra carregar sozinha. E carregou.O pai, Amadeo Lucheese, era daqueles homens que falam pouco, mas dizem muito entre uma pincelada e outra. Restaurador de arte. Colecionador de segredos. Tinha mãos precisas, olhos cansados, e a alma partida entre quadros antigos e promessas que nunca fez em voz alta. Ele nunca foi exatamente doce — mas olhava pra filha como quem tenta proteger uma relíquia num mundo de dedos sujos. Louise cresceu nesse silêncio reverente. Como uma obra em restauração. Como algo sagrado e perigoso demais pra ser tocado à toa.Desde pequena, era diferente. Observava demais. Falava com pausas. Sabia nome de ervas venenosas antes de saber conjugar verbos. Gostava de silêncio e solidão, mas não daquelas que pesam — daquelas que abraçam. Tinha mãos delicadas, mas pensamento afiado. E um tipo de sensibilidade que deixava os adultos desconcertados… como se ela enxergasse por trás das cortinas que o mundo insiste em manter fechadas.Louise tinha carinha de anjo sonolento, dessas que seguram uma xícara com as duas mãos e sorriem torto. Mas havia algo nos olhos — um traço de quem já entendeu demais. Talvez por isso, desde muito nova, tivesse fascinação por rachaduras. Coisas partidas. Obras com falhas. Gente remendada.Amadeo, mesmo sem dizer, sabia que a filha não era comum. Deu a ela acesso a livros que nenhuma criança lia. Mostrou pigmentos, mapas antigos, fórmulas esquecidas. E embora nunca contasse tudo, deixava migalhas: palavras soltas, cartas escondidas, nomes riscados em cantos de páginas. Criou-a como se estivesse treinando alguém para um papel que nem ele mesmo entendia por completo.E Louise — bem — ela absorvia tudo com uma naturalidade assustadora. Como quem nasceu pronta.Foi no dia do seu aniversário de 15 anos que a realidade deixou de ser só esquisita e se tornou cruel.Chovia leve. O céu estava daquele jeito opaco que só Milão sabe ter. Eles iam juntos para uma visita técnica num acervo privado — nada demais, a princípio. Só mais um dia comum com cheiro de verniz e promessas abafadas. Mas no caminho, um estalo. Um som agudo. E então fogo. Estilhaços. Gritos que não foram ouvidos porque ninguém quis ouvir.Louise acordou no hospital com os olhos arregalados demais pra alguém dopada. Não chorou. Não gritou. Só perguntou — com a voz trêmula, mas firme:— Foi sabotagem, não foi?Ninguém respondeu. Ninguém nunca respondeu.Mas ela sabia. No fundo dos ossos. Sabia.Amadeo morreu naquele carro — e com ele, a última chance de uma vida comum. A última versão inocente de Louise. A partir dali, tudo virou reconstrução: da pele, da alma, da lógica. E se até então ela era uma menina cheia de perguntas, ali nasceu a mulher cheia de planos.Louise não queria vingança. Vingança é barulhenta. Ela queria outra coisa: controle.Controle do que matou seu pai. Controle de quem manda. Controle do subsolo do mundo.E assim, no dia em que completou quinze anos, nasceu a sombra mais doce e perigosa que esse mundo já viu.Há um tempo entre o luto e o renascimento que ninguém conta. Um vão. Uma dobra estranha entre o que se sente e o que se faz. Louise viveu nesse espaço por muito mais do que se considera saudável — e talvez tenha sido esse o segredo.Não se vingou.
Não colapsou.
Louise construiu.Enquanto o mundo esperava que ela fosse mais uma órfã trágica, ela escolheu ser outra coisa. Estudava o suficiente para parecer brilhante, mas nunca tanto a ponto de gerar desconfiança. Ria o suficiente para parecer viva, mas nunca de verdade. Cultivava amizades como se fossem vasos em uma estufa: com rega medida, poda controlada, e nenhuma raiz que passasse do necessário.Por fora, parecia reconstruída.
Por dentro, era laboratório.E foi nesse período que ela descobriu o prazer de saber demais. Matriculou-se ao mesmo tempo em dois cursos: química e arquitetura. Não por acaso. Queria saber o que move o corpo e o que sustenta a casa. O que mata de dentro e o que sustenta por fora. Queria aprender a montar — e desmontar — tudo.Enquanto os colegas anotavam fórmulas para provas, Louise memorizava proporções de compostos letais. Enquanto desenhavam casas com jardins, ela esboçava rotas de fuga, paredes ocas, passagens falsas, espaços que não constavam em planta nenhuma.Na biblioteca, lia sobre florais e venenos com a mesma intensidade. Na internet obscura, frequentava fóruns anônimos sobre substâncias orgânicas e técnicas de restauração de obras roubadas. Começou a cultivar suas próprias plantas. Testava reações em animais mortos encontrados na estrada. Anotava tudo. Calculava tudo. E sorria com doçura para o mundo, como se estivesse apenas apaixonada por lavanda.Durante a pós-graduação, aprofundou sua fascinação pelo invisível: arquitetura de túneis, estruturas abandonadas, códigos em desenhos. Havia nela uma sede pelo não-dito. E foi nessa época que começou a construir sua rede. Tudo por baixo da superfície, claro. Tudo por gestos, olhares, frases ambíguas deixadas como armadilhas entre uma aula e outra.Louise não pedia favores.
Ela criava dívidas.E conforme sua lista de contatos crescia, os nomes começaram a aparecer. Falsificadores. Restauradores de fachada. Marchands com cheiro de sangue nos bolsos. Antigos amigos do pai — e inimigos também.Não demorou muito para a menina dos olhos sonhadores começar a organizar pequenas operações. Primeiro uma cópia trocada por original. Depois, uma tela desparecida devolvida “misteriosamente” em condições perfeitas. Ninguém desconfiava dela. Ela era… inofensiva. Gentil. A moça do cabelo solto que sabia fazer chá de hibisco com o ponto exato de acidez.Só que por trás das receitas de infusão, ela escondia anotações de fórmulas complexas. Por trás dos risos doces, havia escutas escondidas, contratos cifrados, códigos embutidos em bordados ou croquis.Louise passou esses anos construindo o império que ainda não tinha nome. Testando. Escolhendo a dedo quem valia a pena. Eliminando o que era ruído. E principalmente, preparando o palco para que, um dia, sua existência se tornasse apenas um sussurro — enquanto o mundo inteiro dançava ao som da música que ela mesma compunha, bem no escuro.Aos 24, Louise já sabia mais sobre os bastidores do mundo do que a maioria das figuras que o governavam. E, ainda assim, todos a viam como uma mulher comum. Funcionária estável, roupa sem exagero, cheiro de jasmim e livros sempre na bolsa. Gentil com os colegas. Cordial com vizinhos. Irrepreensível.Uma sombra comportada.Mas ninguém ali sabia o quanto de sangue já havia nas pontas de suas luvas de renda.Foi por essa época que ela deu o primeiro passo concreto para o que se tornaria sua assinatura: os leilões secretos. Só que Louise não fazia nada que não fosse esteticamente impecável. Ela não queria apenas vender arte roubada. Queria provocar. Queria ditar o tom. Fazer com que os homens mais perigosos do mundo vestissem terno e engolissem o orgulho para sentar-se em silêncio diante de um palco onde ela sequer aparecia.Tudo começou com um encontro privado num salão subterrâneo de Florença. Um test-drive, digamos. Sete compradores. Uma peça falsificada, outra verdadeira. Ninguém sabia qual era qual — e quem errasse pagava o preço não só com dinheiro, mas com influência. A experiência foi um sucesso. Um escândalo contido. E, acima de tudo, um aviso: havia alguém novo no jogo.Alguém sem rosto.Foi assim que Louise fundou o que viria a ser conhecido em círculos obscuros como A Casa de Vidro. Um nome escolhido a dedo: transparência ilusória. Um lugar que ninguém via, mas que todos temiam. Os leilões aconteciam sempre em locais diferentes — subterrâneos, casarões abandonados, salas que mudavam de planta entre um evento e outro. Tudo perfeitamente arquitetado por ela. As rotas. Os assentos. As saídas de emergência. As câmeras escondidas. Os microvenenos em taças selecionadas.Louise nunca aparecia. Em seu lugar, usava sempre alguém. Uma figura contratada — nunca repetida. Uma mulher. Um homem. Alguém andrógino. Alguém com um sotaque falso. Uma voz ensaiada. Todos com instruções precisas. Todos programados como peças numa instalação viva.E ainda assim, todos sabiam que havia algo maior por trás. Algo que soprava no ouvido dos compradores como vento em templo antigo.E então surgiram os rumores.— Dizem que ela nunca repete uma toxina. — Dizem que ela matou um comprador que tentou descobrir seu nome. — Dizem que ela só dorme duas horas por noite e passa o resto estudando química e mitologia antiga. — Dizem que ela já trocou um quadro de Monet por uma ampola de veneno que paralisa por 9 dias sem deixar marcas.Mas o mais assustador é que… ninguém sabe ao certo se Louise existe mesmo. Os mais poderosos a chamam de “A Curadora”. Os menos ousados evitam dizer qualquer coisa. Porque nos eventos da Casa de Vidro, até os olhares são monitorados. E o menor erro — o mais sutil desrespeito — pode resultar em convites que nunca mais chegam.Louise, enquanto isso, continua sua vida de CLT. Pontual. Elegante. Invisível. Faz café para colegas. Dá bom dia para o porteiro. Carrega sacolas com frutas orgânicas aos sábados.Ninguém imagina que na noite anterior, ela comandou um leilão onde uma escultura egípcia de 3 mil anos foi vendida por 78 milhões de dólares, paga em diamantes, contratos e territórios.Ninguém desconfia que aquela mulher de carinha sonsa é quem determina quem vive, quem morre — e quem se ajoelha.Ela não se vinga.
Ela reina.
Silenciosa.
Como se o mundo fosse um quadro que ela mesma pintou… e só ela sabe onde está a assinatura.Louise tem 29 anos.
Um apartamento silencioso, com cheiro de madeira limpa e janelas que só ela sabe espiar.
Uma rotina de CLT que envolve reuniões mornas, planilhas bem formatadas, gentilezas que não colam nas paredes.
E um império, claro. Silencioso. Preciso. Letal.Mas agora, diferente dos outros anos, ela sente as bordas tremendo. Não por fraqueza. Mas porque a estrutura está grande demais para ser invisível por muito mais tempo.A Casa de Vidro está no seu auge. Seus leilões não são mais apenas eventos criminosos — são rituais. Há cultos dedicados à figura que ninguém nunca viu. Artigos em fóruns secretos tentando decifrar padrões, cores, mensagens ocultas nas obras. Seus convidados trocam criptomoedas, filhos e promessas para conseguir um assento. O ar nos salões é denso. As bebidas, exatas. As mortes? Discretas.Louise controla tudo.
Mas tem sonhado com o pai.Tem acordado no meio da madrugada com o cheiro do couro queimado do carro onde ele morreu. Com as mãos suadas. Com uma raiva que envelheceu com ela, mas nunca adormeceu de verdade.Aquela morte não foi um acaso.
Ela sabe.
Sempre soube.
Só ainda não moveu as peças porque estava construindo o tabuleiro.Agora, com o império consolidado, ela começa a desviar sua atenção. Começa a caçar pelas entrelinhas. A escutar nomes antigos em reuniões novas. A mandar flores específicas para pessoas específicas — cada uma contendo um aviso, um lembrete, um “eu ainda lembro”.E ninguém desconfia.
Porque ela ainda é aquela moça delicada do escritório, que traz bolo de maçã feito em casa e sempre oferece o lugar na fila do café.Mas por dentro?
É lâmina.
É arquitetura de guerra.Louise, aos 29, não é mais só a mulher que sobreviveu.
Ela é o resultado final da equação mais precisa já calculada por um ser humano:
→ como destruir um sistema sem jamais levantar a voz.Só que — e esse é o detalhe mais bonito — mesmo com tudo isso, ela ainda ama.Ama com a intensidade de quem sabe que pode perder tudo. Com a delicadeza de quem conhece a anatomia de um coração por dentro. Com a paciência de quem já aprendeu a envenenar o tempo.E talvez, seja aí que mora o perigo.
Porque Louise, mesmo sendo o segredo mais bem guardado do submundo, ainda sonha com o que não pode ter.Uma vida comum.
Uma manhã sem alerta.
Um amor que não precise de senha.Mas até isso ela esconde bem.
Atrás do batom cor de vinho.
Da risada leve.
Do olhar que parece bobo — e já matou três intenções num segundo.Aos 29, Louise não é mais a promessa.
Ela é a sentença.Só que agora… o mundo começa a sussurrar de volta.
E ela sabe.
A próxima jogada não será só dela.